
No dia 21 de maio de 2020 começamos o nosso retorno para casa, em Londres. Depois de uma temporada de férias no Brasil, era hora de voltar ao lar. Sabíamos que seria uma longa e arriscada jornada. Deixo aqui o relato que poderá ajudar outras pessoas a tomar a decisão de viajar ou não.
Devo realmente viajar no meio de uma pandemia?
Usamos os seguintes critérios para decisão:
1 – Já que estamos no meio de uma pandemia, qual o pior cenário? O pior que poderia acontecer seria nos contaminarmos e acabar entubados numa UTI!!! Parece exagero, mas é a nossa linha de raciocínio. Se isso acontecesse no Brasil, onde estávamos de férias, sem plano de saúde, seríamos atendidos pelo SUS, ou poderíamos optar por um tratamento particular, que nos custaria uma pequena fortuna. Em Londres somos residentes legais e temos direito à saúde pública. Estudando gráficos e estatísticas, concluímos que o maior número de leitos com respiradores disponíveis no momento da viagem estariam em Londres.
2 – Com o número crescente de casos de Covid no Brasil, poderíamos ter sérios problemas se esperássemos mais um tempo para viajar. Existiam pouquíssimos voos do Brasil para Londres, e corríamos o risco que em algum momento ocorresse um completo cancelamento. Estávamos receosos também com medidas mais severas para viajantes internacionais, e uma delas acabou acontecendo que é a quarentena obrigatória de 14 dias para todos os viajantes que chegam na Inglaterra. A partir do dia 8 de junho, todos os passageiros deverão informar o endereço e ficar em casa. Fiscais realizarão visitas aleatórias. Caso a pessoa não seja encontrada, receberá multa de 1.000 pounds (libras esterlinas), quase 7 mi reais! Não conseguiríamos nem sair para o supermercado.
3 – A famigerada curva de casos de contaminação. Escolhemos o momento exato em que as curvas do Brasil e da Inglaterra se cruzariam: Brasil subindo e Inglaterra descendo. Embora eu não acredite que as notificações sejam precisas, em algum dado tínhamos que nos basear.
4 – Estávamos preparados emocionalmente para todo e qualquer tipo de alteração, cancelamento de voos ou impedimento de viagem. Sabíamos que tudo podia ser interrompido a qualquer momento porque trata-se de uma pandemia mundial, onde as decisões podem vir de diversas autoridades. Para nós, é como viajar no meio de uma guerra mundial com um inimigo invisível.

Como fiz a escolha dos voos?
Procurei pelo site Google flight os voos disponíveis, e claro, os mais baratos. Encontramos passagens pela TAP, saindo do Rio e de São Paulo. Optei pelo Rio, porque caso houvesse cancelamento do voo, poderia ficar hospedada no Airbnb de amigos, em Ipanema. Em São Paulo também tenho amigos, mas a contaminação parecia ser maior. (E quem não quer fazer isolamento social com o mar a duas quadras?)
Compradas as passagens Rio-Lisboa-Londres, era hora de comprar o voo nacional. Foi aí onde eu errei. Como ainda faltava um mês para a viagem, fiquei com receio de comprar o trecho nacional e depois ter o voo internacional com saída alterada para São Paulo. Caso cancelassem o único voo semanal do Rio, só me restaria São Paulo. Esperei mais 2 semanas, e os preços dobraram. Foi quando me dei conta que deveria ter comprado a passagem para o Rio na tarifa cheia que me dá direito a cancelamento e reembolso. Já não tinha mais o que fazer e comprei o trecho Porto Alegre – Guarulhos – Galeão (Rio de Janeiro), com tarifa cheia, que foi quase o preço Rio – Londres. Errando é que se aprende. Não haviam voos diretos ao Rio, e o aeroporto Santos Dumont não estava operando na data.
Nossa viagem seria no dia 22 de maio, saindo às 6 da manhã de Porto Alegre, chegando no Rio pelas 11h da manhã, depois de uma conexão em Guarulhos. No dia 18 de maio, 4 dias antes da partida, recebi um e-mail da Gol avisando que o meu voo tinha sido cancelado. O voo seguinte não chegaria a tempo do embarque internacional. Tentei fazer a alteração pelo site, não consegui. Tentei fazer a alteração por telefone, depois de 1 hora de espera na ligação, decidi que seria mais fácil pegar o carro e ir na loja do aeroporto. Em 20 minutos chegamos no aeroporto, completamente vazio, e fomos super bem atendidos. Alteramos o voo para o dia anterior da partida do Rio de Janeiro, num horário bem conveniente.

Quais os cuidados durante a viagem?
EM NENHUM DOS VOOS TIVEMOS CHECAGEM DE TEMPERATURA ANTES DE ENTRAR NA AERONAVE!
Nós optamos pela máxima proteção. Achamos que nunca é exagero equipamentos e medidas de proteção. Se você tiver um grau de autoproteção alto (pode chamar de neurose), seguem as nossas dicas:
1 – Levamos somente mala de bordo. Além de ser mais barato, reduz o tempo no aeroporto na espera das malas e o risco da contaminação de bagagens. Na chegada nos aeroportos não foi preciso passar no balcão de embarque para despachar bagagens. Isso nos poupou no mínimo 1 hora de fila no Galeão. Fomos direto ao portão de embarque internacional, reduzindo o contato com pessoas.
2 – Usamos todos os EPIs (equipamentos de proteção individual) possíveis. Máscara N95 com respirador, óculos de acrílico, protetor facial de acetato (face shield), jaleco médico descartável, touca para o cabelo descartável e pro pé quando descalça, para movimentar mais as pernas. Sem falar nas meias de compressão para evitar embolia nas pernas (que não tem nada a ver com o covid). Ah, e claro, 100ml de álcool gel para cada um, para aplicar nas mãos de hora em hora.
3 – Ingerimos pouco líquido antes dos voos, fomos ao toalete antes de embarcar, para não usar o banheiro do avião. Pensamos que o banheiro pode ser o lugar mais arriscado para se contaminar.
4 – Levamos uma garrafinha de água para pequenos goles durante o voo do Rio até Lisboa. Normalmente tomamos muita água nos voos, desta vez foi bem racionada. A máscara ajuda a reter a umidade e isso reduz a necessidade de tomar água.
5 – Nos trechos curtos, não comemos nem bebemos absolutamente nada para não retirar a máscara.
6 – No trecho longo, já estávamos preparados para não comer, pois imaginamos a cena de todos tirando a máscara ao mesmo tempo e comendo, e o Corona fazendo a festa! Mas como pedimos refeição vegana, nossos pratos vieram muito antes dos demais, uns 30 minutos antes, quando foram servir a classe executiva. Já que na classe econômica ninguém estava comendo, achamos seguro tirar as máscaras e comer rapidamente.
7 – Nos trechos nacionais, como compramos na tarifa cheia, escolhemos os assentos da primeira fila. O desembarque do avião foi bem rápido. Nos trechos internacionais, fizemos o check-in online logo que estava disponível para termos os assentos juntos. Caso nos colocassem separados, pagaríamos um extra para viajarmos juntos. No momento do embarque internacional tentamos upgrade para a classe executiva por 500 dólares cada, mas como já muitas pessoas tinham solicitado no balcão de check-in antes de nós, não conseguimos.
8 – No avião passamos álcool gel nas telas individuais, assim podíamos escolher nossos filmes sem receio. Também não manuseamos revistas nem o cartão de instrução de emergências.
9 – Passamos quase toda a noite acordados, vendo filmes, eu dei umas breves cochiladas. Se dormíssemos, o corpo relaxa, a bexiga enche, e a ida ao banheiro poderia ser inevitável.
Depois de 14 dias em Londres, escrevo este texto com a certeza que não me contaminei no voo. Ufa! Valeu a pena tanto cuidado. Em menos de um mês temos a próxima viagem, de mudança para New York, mas essa história eu conto num outro post.
Fiquem seguros, em casa, e se realmente a viagem for inevitável, espero que alguma dica seja útil.
Um abraço virtual,
Marisol Espinosa
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